Resumo Trabalho

ITINERRIOS ABORTIVOS DE MULHERES NEGRAS E PARDAS EM SALVADOR: REFLEXES SOBRE MATERNIDADE COMPULSRIA E CRIMINALIZAO DO ABORTO

Autor(es): PAULA RITA BACELLAR GONZAGA e orientado por LINA MARIA BRANDO DE ARAS e orientado por LINA MARIA BRANDO DE ARAS

O presente trabalho surge a partir da pesquisa de mestrado intitulada 'Eu quero ter esse direito escolha": Formaes discursivas e itinerrios abortivos em Salvador' desenvolvida no Programa de Ps-Graduao em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gnero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia. Nesse texto pretendo destaco as narrativas das interlocutoras auto-declaradas negras e pardas e como elas pensam os prprios itinerrios abortivos. H uma vasta literatura de trabalhos sobre abortamento que focam em mulheres que recorrem as unidades de sade em decorrncia de procedimentos inseguros que apontam dificuldades financeiras, necessidade de substncia dos filhos j nascidos e de relaes abusivas e/ou violentas como principais razes dos abortamentos entre mulheres negras, pardas e pobres. Entre as narrativas das interlocutoras que entrevistei, todas oriundas de famlias de classes populares e que narram trajetrias de asceno social e econmica atravs da insero na universidade e/ou de concurso pblico, destaca-se a reivindicao do aborto como uma possibilidade de protagonismo na vida pessoal e profissional dessas mulheres. A interrupo voluntria de uma gestao perpassada por consideraes acerca dos planos de carreira, da ausncia de desejo pela maternidade ou da avaliao de qual modelo de famlia pretendem formar e em que momento de suas vidas. Nesse sentido, interessante ressaltar que ao contrrio dos achados veiculados na literatura sobre aborto provocado e mulheres negras e pobres, que apontam lugares de excluso e violncia que ainda persistem em se impor a essas mulheres, apresento nesse texto narrativas que se distinguem por se situar como resistncia a um modelo de maternidade naturalizado; mulheres que pensam qual maternidade possvel ou desejvel e que reivindicam para si a tomada de deciso sobre esse processo. As dificuldades financeiras aqui aparecem em menor destaque do que as ambies profissionais e os planos individuais de vida. Destaca-se aqui a funo da Universidade nesses itinerrios, mesmo quando esto em situao de fragilidade econmica a insero na vida academica possibilita o vislumbre de um futuro de maior possibilidade e que permite o adiamento ou negao da maternidade e a referncia da instituio da maternidade compulsria como modelo a no ser seguido, relatos de interesses individuais se sobressaem em contraponto ao medo de precisar dedicar-se exclusivamente a maternagem e por fim a avaliao de que famlia desejam, com quem forma-la; as mulheres apontam ponderaes significativas sobre o que ser me e que pai desejam para seus possveis filhos. Assim, apesar de uma longa produo de discursos cientificos que reiteram as mulheres negras como corpos sem mente, a anlise das narrativas dos itinerrios abortivos apontam para uma larga reflexo dessas mulheres sobre si, sobre maternidades, paternidades, famlias, individualidades e asceno scio-econmica de mulheres no brancas oriundas de classes populares.

Veja o artigo completo: PDF