Memórias e Resistências: O que MAIS queremos como política de formação e valorização docente?
Falar em formação docente no Brasil é, antes de qualquer coisa, falar em formar para a vida, para a construção de um projeto societário que seja capaz de romper com as profundas desigualdades sociais, econômicas, territoriais, étnico-raciais e educacionais que marcam profundamente nosso país. Para que isso aconteça, tal projeto não pode conceber o direito à educação às lógicas do mercado, aprofundando desigualdades históricas e limitando o acesso, a permanência e o sucesso escolar das classes populares. Também não pode se traduzir por sua neutralidade, mas por um conjunto de ações orquestradas, alinhado aos interesses econômicos e políticos que concebem a educação como mercadoria e não como direito social.
A formação docente, nesse sentido, precisa ir além da aquisição de técnicas e métodos de ensino, que não se materializam e se pautam pela realidade social e territorial das diversas regiões de nosso país. Precisa assumir um caráter crítico, reflexivo e comprometido com a realidade concreta dos sujeitos da escola pública, compreendendo a formação dos conteúdos curriculares e das exigências burocráticas da profissão para além da sala de aula.
Quando questionamos sobre o que mais queremos como política de formação e valorização docente, a resposta não cabe em medidas pontuais ou soluções técnicas. Não se apresenta como algo pronto e inacabada, mas de uma formação como política de Estado, contínua, pública e socialmente referenciada, bem longe de ser uma ação fragmentada, emergencial ou subordinada a interesses de mercado. Acreditamos em uma valorização real da profissão docente, que se materialize em carreira estruturada, em salários dignos, em condições de trabalho adequadas e em tempo garantido para estudo, planejamento e formação continuada.
Falar de formação de professores é reconhecer que ela não se limita aos espaços institucionais das universidades ou às normativas oficiais, mas se produz na confluência entre saberes acadêmicos, experiências escolares, trajetórias de vida e lutas sociais. A docência se forma no tempo longo, no encontro com o outro e na reflexão permanente sobre a prática, exigindo processos formativos que articulem criticidade, sensibilidade e compromisso público com a educação.
E foi sob a égide desse pensamento que aconteceu em Brasília de 07 a 10 de dezembro de 2025, na Universidade de Brasília, Campus Darcy Ribeiro, o Encontro Nacional das Licenciaturas e IX Seminário Nacional do PIBID, com o título: Memórias e Resistências: O que MAIS queremos como política de formação e valorização docente? Foram dias intensos e de grandes debates, compromissados com à formação e o trabalho docente, com a materialidade do novo Plano nacional de Educação 2024/2024, com as lutas e resistências por meio do PIBID e da união de entidades educacionais em torno do processo de formação e valorização da carreira docente no Brasil.
Mais do que um evento acadêmico, o ENALIC se constitui como um espaço político-pedagógico de encontros e reencontros. Um espaço de celebração, por meio do qual estudantes de licenciatura, professores da educação básica, formadores de docentes e pesquisadores compartilharam inquietações, práticas e pesquisas que emergem do cotidiano escolar e universitário. Esse encontro de gerações e de saberes produziu um movimento formativo potente, no qual aprender e ensinar se entrelaçam, reafirmando a formação docente como processo coletivo e contínuo.
Esse espaço diverso e cheio de afeto, também foi palco da segunda edição do Prêmio Paulo Freire, criado no ano de 2023, pelo Forpibid-rp, para premiar os dois melhores trabalhos de cada região do país que estiveram em Brasília. Este prêmio não se limita a uma homenagem nominal; ele atualiza um legado. Ao evocar Paulo Freire, convoca-se uma ética da esperança, da indignação e da ação transformadora tão necessária nos processos de formação docente contemporâneos. As experiências reconhecidas pelo prêmio revelam que é possível construir práticas educativas críticas, democráticas e socialmente referenciadas, mesmo em contextos marcados por desigualdades e tensões.
Assim, este livro foi dividido em duas seções. Na primeira, contempla os dez artigos premiados no Prêmio Paulo Freire, sendo dois por cada região do país. O X ENALIC e o Prêmio Paulo Freire se constituem como espaços de memória e de futuro. Memória, porque preservam e atualizam lutas históricas em defesa da formação docente e da educação pública. Futuro, porque apontam caminhos possíveis para a construção de licenciaturas comprometidas com a justiça social, com a diversidade e com a democracia, formando professores capazes de pensar, sentir e agir criticamente no mundo.
Já a segunda seção traz a publicação de dezessete artigos das cinco regiões do país, selecionados, pela comissão editorial, dentre todos os apresentados no evento, na modalidade trabalho completo. Ademais, o prefácio apresenta a carta de Brasília que traduz a mensagem dos participantes do evento.
Desejamos que este e-book, inscrito no contexto da 10ª edição do ENALIC, seja lido como convite ao diálogo e à reflexão coletiva. Inspire novos encontros, novas práticas e novos compromissos com a formação docente. E que, à maneira de Paulo Freire, possamos seguir acreditando que educar é um ato de coragem, de amor e de esperança — sempre em construção, sempre em movimento.
Memórias e Resistências: O que MAIS queremos como política de formação e valorização docente?
Universidade de Brasília - UnB - Campus Darcy Ribeiro - Brasília